O GNU Linux-libre 7.3 remove blobs de firmware de drivers como Tyr Mali, amdgpu e Wi-Fi. Saiba o que mudou, os trade-offs e como baixar o kernel 100% livre.
No dia 19 de outubro de 2026, a Free Software Foundation Latin America (FSFLA) anunciou o GNU Linux-libre 7.3-gnu, a versão 100% livre do kernel Linux 7.3, lançado upstream apenas um dia antes.
O projeto, que integra o GNU Project desde 2012, tem uma missão clara: remover dos drivers do Linux qualquer dependência de firmware proprietário ou de elementos considerados incompatíveis com os ideais do software livre.
Enquanto a maioria das distribuições Linux embarca silenciosamente blobs binários — pedaços de código fechado que fazem placas de Wi-Fi, chips gráficos e adaptadores de rede funcionarem —, o Linux-libre opta pela transparência radical.
A cada ciclo de lançamento, a equipe da FSFLA revisa os novos drivers adicionados ao kernel upstream, identifica nomes de blobs recém-inseridos e os remove, além de limpar documentações que possam induzir usuários a baixar componentes não livres.
Esta edição do kernel não é apenas uma atualização técnica; é um posicionamento filosófico sobre quem deve controlar o hardware que você usa.
O que exatamente foi limpo na versão 7.3
O anúncio oficial, assinado por Freedo, o mascote pinguim do projeto, classifica as mudanças da versão 7.3 com bom humor: "O mais recente lançamento upstream armou várias armadilhas novas... boooo... que desarmamos". A lista de "armadilhas desarmadas" inclui tanto drivers novos quanto componentes que já existiam em versões anteriores.
Nos drivers novos, a limpeza atingiu:
- Tyr Mali GPU: o driver para a GPU Mali da Arm, presente em SoCs voltados para dispositivos móveis e embarcados.
- Morse Micro mm81x Wi-Fi: chips de Wi-Fi de baixo consumo baseados no padrão 802.11ah (HaLow).
- NXP Wi-Fi: componentes de conectividade sem fio da NXP Semiconductors.
- Realtek PHY: a camada física (PHY) de chips de rede da Realtek.
Já nos drivers que já existiam, a varredura alcançou:
- amdgpu: o driver de código aberto para GPUs AMD.
- tegra: a plataforma Tegra da NVIDIA, voltada para dispositivos embarcados.
- iris video decoder: o decodificador de vídeo Iris da Intel.
- rtw89 e mt76: drivers de Wi-Fi da Realtek e MediaTek, respectivamente.
- remoteproc e Qualcomm Q6V5 PAS: o subsistema de gerenciamento de processadores remotos e o driver para o processador de áudio e sensores da Qualcomm.
- qla2xxx scsi: o driver para adaptadores SCSI da QLogic.
- aw88399 sound codecs: codecs de áudio da Awinic.
- Arquivos de devicetree da Qualcomm: descrições de hardware que fazem referência a componentes proprietários.
Para quem acompanha o ecossistema, a presença de nomes como amdgpu, adreno e nova-core não surpreende.
Os gráficos e redes continuam sendo as áreas em que os fabricantes são menos dispostos a liberar documentação ou alternativas livres.
A cada novo ciclo do kernel, a FSFLA precisa correr atrás do prejuízo para garantir que esses drivers não introduzam dependências fechadas.
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O custo da liberdade: o que deixa de funcionar
O compromisso com a auditabilidade total tem um preço técnico que os mantenedores não escondem. Ao remover os blobs, o Linux-libre simplesmente não oferece suporte a uma série de hardwares que dependem deles para operar.
As placas de som, placas de vídeo, sintonizadores de TV e, principalmente, adaptadores de rede — especialmente os modelos mais recentes de Wi-Fi Intel e GPUs NVIDIA — estão entre os dispositivos que podem simplesmente não funcionar.
Há ainda uma questão de segurança que merece atenção. O Linux-libre não distribui atualizações de microcódigo de CPU, que são proprietárias. Essas atualizações são, muitas vezes, a única forma de corrigir falhas em nível de hardware, como as famosas vulnerabilidades Spectre e Meltdown.
Como resultado, um sistema rodando Linux-libre pode ficar mais exposto a certos tipos de ataques de canal lateral do que uma instalação convencional. A menos, é claro, que a correção possa ser feita puramente em software.
A escolha, portanto, é consciente: para puristas e entusiastas da liberdade de software, a ausência de blobs é um pré-requisito inegociável para a confiança no sistema.
Para a maioria dos usuários, que dependem de Wi-Fi e placas gráficas modernas no dia a dia, o kernel padrão do Linux continua sendo a opção mais prática.
Como obter e testar o GNU Linux-libre 7.3
O kernel está disponível de várias formas. O código-fonte pode ser obtido via git, na tag v7.3-gnu. Tarballs pré-comprimidos estão hospedados no site da FSFLA.
Para quem prefere pacotes binários, os projetos Freesh e RPM Freedom oferecem pacotes .deb e .rpm compilados, respectivamente.
A instalação pode ser feita na maioria das distribuições GNU/Linux, seja como kernel principal, seja em paralelo ao kernel que você já utiliza.
O Linux-libre é o padrão em distribuições como Dragora, dyne:bolic, GNU Guix, Hyperbola e Parabola, e é oferecido como alternativa em distros mainstream como Arch, Fedora e Gentoo.
Para quem deseja se aprofundar, a documentação oficial do projeto explica a abordagem de "mudanças mínimas": o Linux-libre não tenta substituir os componentes removidos por equivalentes livres, mas incentiva e apoia esforços nesse sentido.
Por que isso importa (além do nicho)
O GNU Linux-libre é, antes de tudo, um lembrete de que a liberdade de software não é um conceito abstrato. Ela se materializa em decisões concretas sobre o que entra no código que roda na sua máquina. Cada blob removido é uma linha a menos de código que você não pode ler, auditar ou corrigir.
Em um momento em que a segurança e a privacidade são preocupações centrais, saber exatamente o que o seu kernel faz — e, principalmente, o que ele não faz — tem um valor que vai muito além do entusiasmo técnico.
O Linux-libre não é para todo mundo, e seus mantenedores sabem disso. Mas para quem precisa de um sistema completamente auditável, ele continua sendo uma das poucas opções viáveis.
Se você quer entender mais sobre o projeto, vale a pena conferir o site oficial da FSFLA e acompanhar as discussões da lista de e-mails. A liberdade, afinal, também se exerce na escolha informada.
Checklist para copiar e colar: vale a pena migrar para o Linux-libre 7.3?
□ Você depende de Wi-Fi Intel recente ou de uma GPU NVIDIA/AMD moderna no dia a dia?
□ A sua placa de som ou sintonizador de TV exige firmware proprietário para funcionar?
□ Você está disposto a abrir mão de atualizações de microcódigo de CPU (e assumir os riscos de segurança associados)?
□ A auditabilidade total do código que roda no seu computador é um requisito inegociável para você?
□ Você sabe como instalar um kernel alternativo e reverter para o original em caso de problemas?
□ Você utiliza ou pretende utilizar uma distribuição que oferece suporte oficial ao Linux-libre (Guix, Parabola, Hyperbola etc.)?
Se a maioria das respostas for "sim" para as duas últimas perguntas e "não" para as três primeiras, o Linux-libre 7.3 pode ser uma excelente escolha. Caso contrário, o kernel padrão da sua distribuição provavelmente atenderá melhor às suas necessidades.
Conclusão
O GNU Linux-libre 7.3 reafirma o compromisso da FSFLA com um kernel totalmente auditável: os blobs de firmware foram removidos de drivers como amdgpu, adreno, Tyr Mali, rtw89, mt76 e nova-core, entre outros.
A contrapartida é concreta: Wi-Fi, GPUs e codecs recentes podem deixar de funcionar, e o sistema não recebe atualizações de microcódigo de CPU.
Para quem prioriza liberdade e transparência acima da compatibilidade imediata, vale testar em paralelo ao kernel padrão; para o uso cotidiano com hardware moderno, o kernel convencional segue mais prático.
Em resumo, o Linux-libre não é para todo mundo — e é justamente essa escolha consciente que dá sentido ao projeto. Saiba mais e baixe em FSFLA.org.

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