O Linux 7.4 remove suporte big-endian do ARM64: entenda o impacto, a chegada do NVIDIA Rigel e o que muda no desenvolvimento do kernel em português.
O kernel Linux 7.4 está oficialmente removendo o suporte a builds big-endian para a arquitetura ARM64 (AArch64).
A mudança, que já era esperada desde setembro de 2025, quando a opção CPU_BIG_ENDIAN foi marcada como "BROKEN" no Kconfig, agora se concretiza como parte das atualizações da arquitetura ARM64 para o ciclo de merge aberto.
Por que o suporte big-endian está sendo removido?
A justificativa central é a raridade extrema de uso. Configurações big-endian em ARM64 são "vanishingly rare" (extremamente raras), segundo Will Deacon, mantenedor da arquitetura ARM64 no kernel. Além disso, o código carecia de interesse de desenvolvedores e de testes regulares.
Em setembro de 2025, um patch intitulado "arm64: Kconfig: Make CPU_BIG_ENDIAN depend on BROKEN" deixou explícito que manter o suporte adicionava "fardo desnecessário a revisores e contribuidores" sem usuários ativos conhecidos.
Um dos poucos usuários conhecidos foi a Huawei, que anos atrás utilizava máquinas ARM64 big-endian em produtos de telecomunicações. No entanto, a empresa não contribuiu com patches para manutenção ou suporte contínuo, o que tornou inviável justificar a permanência do código.
A remoção, portanto, não é uma surpresa, mas o desfecho de um processo de depreciação que já durava mais de um ano.
O que exatamente está sendo removido?
A limpeza envolve menos de quinhentas linhas de código do kernel. Embora pareça pouco em volume, o impacto é significativo: elimina-se um caminho de código alternativo e uma combinação de testes que precisavam ser considerados em patches futuros para o ARM64.
Isso significa que desenvolvedores que trabalham com a arquitetura terão menos complexidade para lidar ao propor melhorias em áreas como rotinas de futex, virtualização aninhada e outras funcionalidades que antes precisavam acomodar ambas as endiannesses.
A remoção foi conduzida por Will Deacon em uma série de patches (v2 com 14 patches) que deleta os últimos resquícios do suporte big-endian no kernel ARM64, incluindo definições de Kconfig, macros de assembly e suporte a hypervisor big-endian no KVM.
O código já estava morto desde que a opção se tornou dependente de BROKEN, e a limpeza final apenas formaliza o fim de uma era.
O que isso significa para os desenvolvedores e usuários?
Para a grande maioria dos desenvolvedores e usuários de Linux em ARM64, a mudança é transparente. Praticamente todos os sistemas ARM64 modernos — de servidores a dispositivos embarcados — operam em little-endian.
A remoção do big-endian não afeta esses cenários. O que muda é a manutenção do kernel: menos código para revisar, menos combinações de teste para validar e menos risco de regressões silenciosas em um caminho que ninguém usa.
Para quem eventualmente ainda dependa de ARM64 big-endian (o que é extremamente improvável nos dias de hoje), a recomendação é permanecer em versões anteriores do kernel (como a série 6.x) ou buscar alternativas arquiteturais. A comunidade de kernel não sinalizou qualquer plano de reintroduzir o suporte.
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NVIDIA Rigel: a novidade que chega junto com a limpeza
Enquanto remove código legado, o Linux 7.4 também adiciona suporte inicial ao NVIDIA Rigel, o próximo núcleo de CPU da NVIDIA baseado em Arm v9.2. Os patches, enviados por Shanker Donthineni (NVIDIA), incluem as definições de CPU part e MIDR (Main ID Register) para o Rigel, além de habilitar a capacidade BBML2 no-abort (também chamada de BBML3) para esse núcleo.
O Rigel é o sucessor do núcleo Olympus usado no NVIDIA Vera e será a base da CPU NVIDIA Rosa, que a empresa posiciona para a era da "agentic AI".
De acordo com a NVIDIA, o Rigel oferece maior desempenho por núcleo em comparação ao Olympus, mantendo a mesma pegada de silício, com melhorias em entrega de instruções, cache L2 maior e manuseio de memória mais eficiente.
A inclusão no kernel Linux 7.4 é um passo importante para a NVIDIA, que vem preparando o terreno para suas CPUs Arm no mercado de servidores e data centers. O suporte no kernel é fundamental para que distribuições e sistemas operacionais possam reconhecer e otimizar o Rigel adequadamente.
O que esperar do futuro do ARM64 no Linux?
A remoção do big-endian e a chegada do Rigel ilustram duas tendências: simplificação do código existente e preparação para novas gerações de hardware. O kernel Linux está cada vez mais focado em little-endian para o ARM64, alinhado com a realidade do mercado.
Ao mesmo tempo, a arquitetura recebe suporte a núcleos de alto desempenho voltados para IA e servidores, o que deve movimentar o ecossistema nos próximos anos.
Para quem acompanha o desenvolvimento do kernel, a dica é ficar de olho nos patches da lista de discussão linux-arm-kernel e nos anúncios de merge window.
A remoção do big-endian pode parecer um detalhe, mas reflete uma maturidade da arquitetura ARM64 no Linux, que agora pode evoluir sem o peso de um legado que nunca foi realmente utilizado em larga escala.
Checklist para acompanhar a mudança
□ Verificar se sua distribuição ou dispositivo utiliza ARM64 em modo big-endian (improvável).
□ Atualizar para o Linux 7.4 ou superior apenas se precisar de suporte ao NVIDIA Rigel.
□ Acompanhar os patches de Will Deacon no lore.kernel.org para detalhes da remoção.
□ Ficar atento a anúncios da NVIDIA sobre a CPU Rosa e o núcleo Rigel.
□ Revisar scripts de build personalizados que possam habilitar CPU_BIG_ENDIAN (remover a opção).
Conclusão
O Linux 7.4 remove o suporte big-endian do ARM64, um código raro e sem manutenção, e adiciona suporte inicial ao NVIDIA Rigel, o futuro núcleo da CPU Rosa. Entenda o impacto e o que muda para desenvolvedores e usuários.


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